“Me formei com o desejo de ajudar as pessoas”, diz deficiente visual que colou grau em Direito

Determinação, persistência e superação são as palavras que podem definir a trajetória de Orlei da Costa na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Durante seis anos, a rotina do morador de Venâncio Aires foi a mesma. Focado em concluir o curso em Direito, seguia diariamente de transporte coletivo até Santa Cruz do Sul.

Às vezes, enfrentava mais de um ônibus para chegar na universidade. O esforço parece mínimo, não fosse por um detalhe. Orlei é deficiente visual desde que uma atrofia do nervo óptico representou a maior perda de sua vida, em plena juventude. Ele perdeu a visão aos 19 anos. ‘Ser cego nunca me impediu de estudar. Concluir o curso de Direito é um sonho de adolescência’, relembra.

Aos 48 anos, o morador do bairro Cruzeiro se tornou o primeiro acadêmico com deficiência visual a concluir o curso de Direito da instituição, que existe há 51 anos. A formatura em gabinete, na quarta-feira, 20, foi presidida pelo pró-reitor de graduação, Elenor Schneider. Em seu pronunciamento, durante a formatura, Orlei agradeceu a todos e destacou que essa conquista lhe proporcionaria novas possibilidades no futuro. Agora, ele passa a se preparar para o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e quer se especializar em Direito Trabalhista e Previdenciário.É uma grande alegria vê-lo alcançando o grau de bacharel em Direito, o que mostra o verdadeiro sentido de universidade, com toda a diversidade que lhe é peculiar.’
ELIA DENISE HAMMES
Coordenadora do curso de Direito da Unisc

MUITOS FORAM OS APOIOS PARA CHEGAR AO TOPO

Mais do que força de vontade, o auxilio da universidade e o apoio de casa também foram fundamentais. A esposa Suzana das Graças Amaro, 34, que também é cega, serviu de motivação. Além do encorajamento da família, graças aos professores e colegas, Orlei seguiu enfrentando os desafios que insistiam em afastá-lo do sonho de conquistar o diploma.

Além disso, o fato de ter sido o primeiro aluno cego do curso exigiu tanto dele quanto dos professores. Juntos, aprenderam uma maneira de contornar a limitação visual. ‘A forma que os professores explicavam o conteúdo mudou quando reconheceram que eu precisava de atendimento diferenciado’, conta o agora bacharel em Direito.

Devido à deficiência visual, o curso proporcionou a Orlei mais tempo para realizar as provas, material adaptado ao leitor de tela que usa no computador e aulas gravadas. ‘Muitos processos internos foram alterados e adaptados para atender às necessidades do acadêmico, inclusive no estágio que funciona com o atendimento real à comunidade, onde houve adaptações para que ele pudesse ter o máximo de autonomia possível para desenvolver o seu trabalho’, salientou a coordenadora do curso de Direito, professora Elia Denise Hammes.

EQUIPE

Outro auxílio importante na universidade veio da equipe multiprofissional do Núcleo de Apoio Acadêmico (Naac), que identificou os recursos de acessibilidade necessários no processo de ensino-aprendizagem, visando a permanência, desenvolvimento e conclusão do curso. O Naac realizou mediação, assessoria e formação entre os diferentes setores, a coordenação aos professores e o aluno, orientando na eliminação das barreiras atitudinais, metodológicas, arquitetônicas e comunicacionais na universidade.

O Naac também auxiliou na mobilidade de Orlei dentro do campus, adaptou textos e materiais pedagógicos, tornando-os acessíveis ao software de leitor de tela, e forneceu apoio na busca de materiais e no acesso aos ambientes virtuais. ‘O nosso trabalho, em conjunto com o curso de Direito e outros setores, proporcionou inclusão e acessibilidade na Unisc e contribuiu para a autonomia e a independência do acadêmico’, aponta a coordenadora do Naac, Raquel Ribas Fialho.

Sua esposa Suzana foi fundamental no apoio a Orlei para conquistar o diploma de bacharel em Direito
Sua esposa Suzana foi fundamental no apoio a Orlei para conquistar o diploma de bacharel em Direito

DIA A DIA

Hoje, o itinerário de ônibus direciona os passos de Orlei pelas calçadas de Venâncio Aires, pois aprendeu a diferenciar os sons dos coletivos ao dos carros. Para quem anda sozinho diariamente pelas ruas, chegar em casa já deixou de ser um desafio, pois são 20 os degraus que separam a porta principal da calçada. O agora bacharel em Direito precisou de superação para aceitar sua nova condição, pois diz que teve preconceito de si mesmo. ‘Não se aceitava usando bengala. Pensava inclusive em me matar’, afirma.

A casa branca de madeira, onde residia com a família, faz parte das últimas imagens que ainda mantém registros. Lá ficou isolado por quase quatro anos até que teve coragem para seguir adiante. O nascimento dos filhos do primeiro casamento contribuíram em muito para a sua recuperação. Os filhos possuem hoje 29 e 26 anos. Hoje diz que é um homem feliz que aprendeu a dar valor às coisas, mesmo sem as vê-las. Atualmente, Orlei da Costa é um homem ativo na sociedade. Preside, em Venâncio Aires, Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência, e em Lajeado está a frente Associação de Pais, Amigos e de Pessoas com Deficiências Visuais (Apadev).

Embora natural de Linha Quatro Léguas, no interior de Boqueirão do Leão, morou por muitos anos em Lajeado e Bom Retiro do Sul. Se mudou para Venâncio Aires em 2013, após ser selecionado para vaga de auxiliar administrativo, a partir de um programa para deficientes, em uma fumageira. Hoje vive feliz seu segundo casamento na Capital do Chimarrão.

Fonte: Folha do Mate