Deficientes visuais conquistam vagas em concursos com ajuda de voluntários

Louis Braille, criador do sistema de leitura para cegos, disse: “Somente livros poderão libertar os cegos”. Fazendo jus à fala de Louis, a principal biblioteca para cegos do Distrito Federal oferece aos deficientes visuais a possibilidade de voar com as próprias asas. Com paciência e determinação, as pessoas que usufruem da Biblioteca Braille Elmo Luz (612 Sul), vão conquistando lugar no mercado de trabalho e adquirindo a colocação acadêmica desejada.

O sonho de ingressar no ensino superior, de ser aprovado em um concurso ou de concluir o diploma do ensino médio é alcançado pelos deficientes visuais com o auxílio dos livros traduzidos em braile e do apoio de voluntários que ajudam os frequentadores da biblioteca a estudar. Localizada no Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), a Biblioteca Braille Elmo Luz é referência no DF em livros em braile e audiolivros.
A biblioteca atende a deficientes visuais e pessoas com baixa visão que precisam fazer trabalhos da faculdade e estudar para vestibular ou concurso. Cerca de 50 deficientes visuais frequentam o espaço por mês para pegar emprestado livros em braille, usar a máquina de escrever em braille ou para reforçar os estudos.Continua depois da publicidade
Viviane Santos, 22 anos, é uma das frequentadoras do local. Nos primeiros meses de vida de Viviane, a deficiência visual foi descoberta. A cegueira teria sido ocasionada por uma doença chamada retinopatia na prematuridade. A condição é uma das principais causas de cegueira infantil e ocorre em função da interrupção do processo natural da formação dos vasos da retina quando o bebê nasce prematuro.
“Eu nasci prematura, já nasci cega. Desde que fui diagnosticada, e descobriu-se que a cegueira era irreversível, começaram os cuidados da família para que eu pudesse ter uma vida normal”, disse Viviane. Ainda criança, Viviane passou a frequentar o Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais. Aos 8 anos de idade, depois de ter sido alfabetizada em braille, ela foi para o ensino regular em escolas públicas da capital. “Depois que saí do centro, fui para uma escola pública no Gama, perto da minha casa. Mas essa escola não era preparada para receber alunos especiais, os professores não sabiam braille e não conseguiam me ajudar, tive muita dificuldade”, comentou a jovem.
Após passar um ano da educação fundamental enfrentando dificuldades para aprender, Viviane começou a estudar na Escola Classe 405 Sul, no Plano Piloto. “A escola tem uma certa estrutura para receber crianças com deficiência visual. Lá, eu consegui ter um ensino de qualidade”, afirmou. Mesmo assim, Viviane não deixou de comparecer ao CEEDV.

“No centro eu tinha aulas complementares que me ajudaram no dia a dia. Eu tinha aula de informática para aprender a digitar e usar o computador, aprendi também a como andar com a bengala, orientações de mobilidade, reconhecer o ambiente, a rua, a escola”, disse Viviane.

Durante o ensino fundamental e médio, Viviane usava a biblioteca para estudar e tinha o apoio de voluntários com as disciplinas que encontrava maior dificuldade. As limitações causadas pela cegueira não impediram a jovem de sonhar mais alto, depois de formada no ensino médio, o objetivo de Viviane era ingressar em uma universidade pública. Com a ajuda de voluntários e a estrutura da biblioteca para cegos, conseguiu passar no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) para cursar letras tradução inglês. “No fim deste ano, eu me formo e pretendo continuar estudando”.
Hoje, a jovem frequenta a biblioteca com foco em concursos públicos. Ela também almeja fazer outra graduação para dar aulas de inglês. “Quero trabalhar em equipe e ajudar outras pessoas, promover acessibilidade e inclusão social para os cegos”, revelou. Na trajetória da estudante, a biblioteca desempenhou papel fundamental. “Ambientes como esse são essenciais para nós, cegos. Deveriam existir mais espaços assim, com estrutura de qualidade”, completou.
Continua depois da publicidade

A biblioteca Elmo Luz conta hoje com 200 voluntários cadastrados, 800 audiolivros e cerca de 400 volumes de livros da literatura brasileira e internacional em braille. Além disso, o ambiente dispõe de cinco cabines de leitura e máquina e papel de braille.

Falta apoio

Recentemente o governo federal cortou investimentos na Fundação Dorina Nowill e o Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, responsáveis pela distribuição do material usado pelos alunos da biblioteca Elmo Luz. “Quase não estamos mais recebendo material e, com isso, nosso acervo de livros está ficando desatualizado. Seria necessário um investimento em projetos como o Clube do Ledor para garantir que pessoas com deficiência visual tenham as mesmas chances que as pessoas com visão”, comentou a professora Elinalva.

Fonte: Correio Braziliense