Universitária cega faz faculdade adaptar prédio e mobilizar ações de inclusão no interior de SP

Pisos táteis, corrimão adaptado e rampas de acesso são apenas algumas mudanças que uma faculdade de Avaré (SP) passou para se tornar acessível para os alunos com deficiência física.

Tainah Gaspar Gonçalves ficou cega quando estava no segundo ano da faculdade — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Mas toda a transformação aconteceu quando Tainah Gaspar Gonçalves se matriculou no curso de psicologia. Ela é cega e a faculdade percebeu que não tinha estrutura para atender aos alunos que possuíam algum tipo de deficiência.

Tainah Gaspar Gonçalves é cega e faculdade de Avaré (SP) passou por adaptações depois que ela se matriculou no curso de psicologia — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Tainah Gaspar Gonçalves é cega e faculdade de Avaré (SP) passou por adaptações depois que ela se matriculou no curso de psicologia — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

“Quando eu entrei na faculdade, eu enxergava 5% do olho esquerdo e não precisava da acessibilidade. Mas perdi minha visão no meio do segundo ano e por isso o pessoal fez essa mobilização pra resolver”, conta Tainah em entrevista ao G1.

Foram feitas reformas nos banheiros, mudanças no estacionamento, implantadas placas em braille e computadores com acessibilidade na biblioteca da unidade. Mas as mudanças não foram apenas arquitetônicas.

Faculdade de Avaré (SP) passou por adaptações para receber estudantes com deficiência — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM
Faculdade de Avaré (SP) passou por adaptações para receber estudantes com deficiência — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Faculdade de Avaré (SP) passou por adaptações para receber estudantes com deficiência — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Segundo David Marconi Polonio, coordenador do curso de psicologia da faculdade, também foram realizadas mudanças pedagógicas e comportamentais para a inclusão tomar conta do dia a dia não só da Tainah, mas dos demais alunos da instituição.

“Em contato com a Tainah eu percebia as dificuldades dela e então montamos um Núcleo de Inclusão. Além de toda a mudança no prédio, tornamos os materiais acessíveis também. O curso de psicologia tem muito material escrito e quando é em PDF, o programa do computador adaptado lê. Mas em casos de livros impressos, os transformamos em áudio. Temos um grupo dentro do núcleo que chama ‘Janelas e Pontes’, onde os alunos leem o material e gravam”, explica.

Tainah grava aulas com a ajuda do celular — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM
Tainah grava aulas com a ajuda do celular — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Tainah grava aulas com a ajuda do celular — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Já na sala de aula, em vez do papel e caneta Tainah utiliza o celular para gravar as aulas. Já as provas são feitas oralmente.

“São muito boas as adaptações, a faculdade está bem preparada para receber outros alunos deficientes também”, ressalta a jovem.

Ainda de acordo com o David, depois da transformação os alunos da instituição estão mais engajados em relação à inclusão porque também são realizadas dinâmicas para sensibilizar as pessoas sobre as dificuldades do dia a dia de um cego, por exemplo.

“Nós temos o ‘Café às Cegas’, que é um café da manhã feito para os alunos, mas eles são vendados, trocamos os alimentos de lugar e eles precisam se alimentar às cegas. No início muitos dão risada, mas depois a situação gera um incômodo e abrimos para discussão”, conta. “Eles começam a perceber dificuldades em coisas que nunca imaginariam. É um trabalho de formiguinha”, diz.

Alunos de faculdade de Avaré (SP) participam de vivências como o 'Café às Cegas' — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM
Alunos de faculdade de Avaré (SP) participam de vivências como o 'Café às Cegas' — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Alunos de faculdade de Avaré (SP) participam de vivências como o ‘Café às Cegas’ — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

A criação da liga de acessibilidade no núcleo transformou o dia a dia, mas também o universo da Tainah.

“Quando ela perdeu a visão, assumiu completamente o protagonismo da cidade dela e no núcleo, porque passou a ser protagonista na luta dos direitos dela e de outras pessoas com deficiência. Ela se tornou mais ativa, hoje muita gente a conhece. A Tainah conduz palestras, discussões e isso mudou muito”, afirma David.

David Marconi Polonio é coordenador do curso de psicologia da faculdade de Avaré (SP) e percebeu as dificuldades de Tainah no dia a dia — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

David Marconi Polonio é coordenador do curso de psicologia da faculdade de Avaré (SP) e percebeu as dificuldades de Tainah no dia a dia — Foto: Lucas Cerejo/TV TEM

Perda da visão

A mãe de Tainah teve toxoplasmose durante a gravidez e a filha nasceu com a doença. Em alguns casos, o protozoário atinge os olhos e a jovem tinha apenas 5% da visão. Mesmo assim, ela levava uma vida normal e frequentava as aulas.

Tainah tinha baixa visão desde que nasceu — Foto: Tainah Gaspar Gonçalves/Arquivo Pessoal
Tainah tinha baixa visão desde que nasceu — Foto: Tainah Gaspar Gonçalves/Arquivo Pessoal

Tainah tinha baixa visão desde que nasceu — Foto: Tainah Gaspar Gonçalves/Arquivo Pessoal

No entanto, o protozoário voltou a atacar quando Tainah estava no segundo ano da faculdade e ela ficou cega.

“Perdi a visão do dia pro outro, tive que aprender a fazer as coisas de novo. No início foi complicado mas agora está tranquilo”, afirma.

“Quando perdi a visão, minha primeira reação foi tentar me acalmar porque não precisava de desespero. Eu fui aprendendo, vendo que não era tão difícil nem era ‘o fim do mundo’”.

Fonte: G1- TV TEM Itapetininga interior de sp e região