Deficiente visual, Moisés Santoro chega a primeiro do ranking mundial de parajiu-jítsu

Ao começar a perder a visão no auge dos seus 18 anos, o niteroiense Moisés Santoroachou que sua paixão pelas artes marciais teria que ser deixada de lado para sempre. Praticante demuay thai e taekwondo , teve que parar os esportes na época em que começou a sentir as consequências de uma retinose pigmentar bilateral irreversível, que lhe tirou a visão noturna e a periférica, pois já não enxergava mais os chutes dos adversários. Foi no final de 2017, com menos de 20% da visão central, que o funcionário público resolveu começar a praticar jiu-jítsuem busca de condicionamento físico. Desde então, o que seria apenas um hobby se transformou em títulos internacionais disputados em ambas as categorias: paradesportiva e tradicional. RECEBA AS NEWSLETTERS DO GLOBO:CADASTRARJá recebe a newsletter diária?

Há duas semanas, Santoro voltou de Abu Dhabi com os títulos debicampeão do parajiu-jítsu e vice-campeão convencional da competição World Pro 2019 , terminando a temporada em primeiro do ranking global de parajiu-jítsu e jiu-jítsu pela federação de Abu Dhabi e pela Federação de Jiu-Jítsu do Rio de Janeiro.

Em casa. Na Praia de Itacoatiara, Moisés Santoro mostra as principais medalhas que já conquistou
Foto: Fábio Guimarães / Fábio Guimarães

Falta de apoio

Apesar de colecionar títulos em pouco tempo, o atleta esbarra na falta de apoio para se dedicar melhor aos treinos e de recursos para participar dos campeonatos mundo afora.

— Nesse último campeonato, pedi para um amigo comprar a passagem no cartão contando que ganharia o prêmio de mil dólares para saldar o empréstimo. O prêmio veio, mas paguei a dívida e fiquei zerado. Ano passado ainda pude investir para participar de outros campeonatos. Nessa última temporada em Abu Dhabi dormi no chão do quarto de hotel de amigos — lembra o lutador, que compete na classe B3 no parajiu-jítsu e na faixa roxa no jiu-jítsu.

Refúgio em Itacoa

Morando atualmente no Rio, Santoro treina na academia carioca Rio Breda e, em Niterói, na Nova União, com Thales Leites. Funcionário público da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja), o lutador é o primeiro atleta da história do órgão.

— Costumo dizer que não me considero um atleta de fato, pois nos campeonatos enfrento atletas que têm todo o aparato necessário. Apesar de meus títulos serem contra profissionais e de eu fazer parte da Seleção Brasileira de Jiu-Jítsu Paradesportivo, não tenho a estrutura que os meus rivais têm. O que eu mais preciso hoje é de apoio para suplementação e de profissionais, como nutricionista e preparador físico. O dinheiro mesmo eu preciso para viajar. Para viver, o meu salário me banca — explica.

Na hora de recarregar as energias, a Praia de Itacoatiara é o destino certo do lutador. Pai de duas meninas, uma de 4 anos e outra de 14, é para lá que leva as filhas nos fins de semana.

— Vivi mais de 20 anos na Região Oceânica. Minha mãe mora em Itaipu, e aqui me sinto em casa — conta, ao ser reconhecido por amigos durante a sessão de fotos para O GLOBO-Niterói.

Com foco no World Master Jiu-Jítsu Championship, marcado para agosto em Las Vegas, Santoro afirma que tem total condições de estar entre os melhores:

— Estou me dedicando para isso.

Fonte: Jornal O Globo