Atletas voluntários guiam pessoas com deficiência visual em corridas

Acostumados a superar adversidades, um grupo de deficientes visuais encarou o desafio das pistas de corrida na Capital. Para se manter na raia e não escapar do traçado durante as provas, tomam emprestados os olhos de atletas voluntários do Projeto Sexto Sentido. Eles ficam lado a lado com os corredores com deficiência — uma corda conecta os dois pelas mãos.

— Às vezes, o pessoal diz: “Vocês são heróis”. Herói é quem guia a gente. Se não fosse eles, a gente não correria — define Oneide de Souza Figueiredo, 55 anos.

O servidor público é tido como exemplo por quem o encontra, correndo muitas vezes sozinho no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete), no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. O barulho do bastão guia que raspa constantemente no trilho metálico da faixa interna da pista desperta a atenção dos demais frequentadores. O método foi criado por ele para os dias em que se exercita sem auxílio.

— Quando ouço uma voz conhecida gritando meu nome é um estímulo. Ouvir que eu sou o que tira alguém da cama pra treinar é muito gratificante.

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Com uma corda que lembra uma borrachinha de cabelo, os deficientes visuais correm ao lado de seus guiasRonaldo Bernardi / Agencia RBS

Nascido em Santa Catarina, o projeto chegou ao Rio Grande do Sul há dois anos. Atualmente, em parceria com Os Amigos do Cete, conta com 20 guias, que acompanham os maratonistas sem visão.

O grupo busca novos adeptos que queiram participar das corridas, como guia ou competidor. Contatos podem ser feitos no Facebook “Projeto Sexto Sentido RS”, pelo e-mail esporte@acergs.com.br ou pelos telefones (51) 9-9221-1007 (Luciano) ou (51) 9-9291-6945 (Matheus). No Cete, o interessado pode procurar integrantes com as camisetas dos dois grupos.

Superação dos obstáculos

No Estado, cerca de cem atletas participam de atividades da Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs), que vão desde futebol cinco a campeonatos de artes marciais. Nas corridas, são 10 atletas regulares, de acordo com o diretor de esportes e cultura da Acergs, Glailton Winckler da Silva, 41 anos. O número de associados nas provas mais do que dobrou nos últimos quatro anos, período em que ele dirige o núcleo:

Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Antes de iniciar o treino, Oneide ajusta o trilho que usa como referência para o trajetoRonaldo Bernardi / Agencia RBS

— Tem muita gente interessada, mas falta estrutura. A gente teve que ir atrás de atletas, que eram em torno de 40. Parcerias nos ajudam, com gratuidade em inscrições e no transporte dos atletas.

No domingo passado (29), cinco pessoas com deficiência visual participaram de uma corrida em Torres, no litoral norte. As inscrições foram bancadas pelo Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Sul (Sesc), e o transporte realizado pelo Sexto Sentido.

— É muito gratificante correr ao lado de pessoas tão especiais. A superação é um exemplo — conta Fábio Wolff, 35 anos, um dos voluntários.

Além das corridas, o grupo faz trilhas em locais de mata fechada e travessias em rios no interior do Estado.

— Cada um tem sua limitação, mas eles não utilizam isso como desculpa. É muito emocionante — define o guia Luciano Stankowski, 44 anos.

Com 10% de visão em apenas um olho — não enxerga nada com o outro —, percentual que vem gradativamente sendo reduzido, Matheus Baldin, 30 anos, vê no esporte o seu futuro. Estudante de Educação Física, o hoje atleta relembra quando chegou a 165 quilos, o dobro do seu peso atual. O exercício o retirou do sedentarismo e mudou sua autoestima:

— Incrível a gente participar disso tudo, correr e notar o quanto podemos melhorar nossa qualidade de vida. Subir ao pódio, ser ovacionado por quem nos vê ali, mostrando que nada é impossível.

Matheus é casado com Tais Furtado Gonçalves, 27 anos. Sem enxergar desde os oito anos, quando o glaucoma foi agravado, ela deu início à vida de atleta no judô. Com o preparo de quem treina mais de uma hora todos os dias, tem seu passe disputado nas corridas.

— Tenho meu ritmo, às vezes, eles (os guias) ficam pra trás — brinca, enquanto abraça os voluntários.