Aula de Escrita Braille dada pela professora Vanice Gomes com o aluno Ben Hur Flores

Hoje , sexta-feira 6 de dezembro teve mais uma aula de Escrita Braille numa das salas do Centro de Reabilitação Visual Louis Braille com a professora Vanice Gomes. O aluno é o coordenador da ONG Anjos Querubins e ator, Ben Hur Flores, que tem baixa visão.

” Eu fiz o ENEM este ano, só to esperando o resultado prova de redação. Aí quando pedi a aula de braille foi justamente por causa disso. Quero voltar a estudar. Preciso continuar estudando. Ainda tem pouco material ampliado, vídeo-aula e tal, mas eu quero ter um pouco mais de autonomia para me sentir mais presente nas aulas, nos estudos”, e o braille vai me ajudar muito nisso, relata Ben Hur. Ele ainda salienta que a técnica é simples entre outras questões. “É simples, a professora passa isso, como se fosse um código morse assim. Aqueles pontinhos do braille vamos definindo. A primeira palavra que eu consegui ler foi Bala. A minha memória afetiva me levou pra o tempo de escola quando estava na alfabetização ainda. Foi a mesma sensação, emoção que eu senti quando escrevi a primeira palavra , consegui ler a primeira palavra no momento que fiz a primeira em braille. Para eu faltar as aulas só se a minha mãezinha tiver algum problema que não consiga vir, se não eu não falto. Até porque a professora Vanice é uma querida. Ela tem o tino pra coisa. Até porque não adianta ser só profissional , técnico, mas também ter sensibilidade”.

Ben Hur conta mais detalhes também de como foi a sua experiência, o diagnóstico como baixa visão e a vinda para Louis Braille. “Eu em 2012 fui fazer uma reciclagem uma capacitação, era vigilante. Acertei a diferença de um metro para direita e um metro para esquerda porque só tenho visão periférica. Me saí muito mal , acertei o alvo da esquerda e da direita e o meu ficou limpinho. Aí fui fazer alguns exames de rotina para trocar de óculos e não achava um óculos para mim. Num exame mais detalhado descobriram que eu tinha uma doença chamada distrofia ocular retiniana. Uma doença que já nasci com ela, aí foi se desenvolvendo com o passar dos anos. Como só tinha o olho esquerdo , aos 12 anos tomei uma pedrada no Navegantes, perdi o olho direito. Fui perdendo a visão, se me dar conta. Quando cheguei na Escola Louis Braille, já coordenava a ONG Anjos e Querubins lá no bairro Getúlio Vargas, Ao chegar aqui, cheguei deprimido, e dizendo vou fechar a ONG porque as pessoas dependiam de mim, agora eu dependo de alguém. E aí eu fiz esse pedido de socorro para o doutor Alexandre , uma peça fundamental nessa minha retomada da vida. Aí eu disse para ele, quero voltar a ter autonomia na minha vida e me trouxe para Escola Louis Braille. Dali quatro meses depois já estava com a ONG aberta de novo e funcionando. Em 2013 ganhei um prêmio em nível municipal graças a esse resgate que a Louis Braille faz com as pessoas deficientes visuais. Eu costumo brincar que existe vida depois da deficiência visual. Fui isso que descobri quando vim para cá. E ele finaliza com a seguinte frase, a deficiência te traz limitação,mas jamais incapacidades”.

A professora Vanice que acompanha Ben Hur destaca o avanço dele nas aulas. “Não é um processo fácil, é devagar, mas a partir das primeiras letras que nós fizemos ele já consegue escrever algumas palavras , ele leu a palavra Bala. Começamos a ler meio de forma silábica como alfabetização. Os pontinhos da escrita braille simulam o alto relevo” explica a professora.

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Um pouco mais sobre a Escrita Braille

O sistema Braille é um processo de escrita e leitura baseado em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas de três pontos cada. Pode-se fazer a representação tanto de letras, como algarismos e sinais de pontuação. Ele é utilizado por pessoas cegas ou com baixa visão, e a leitura é feita da esquerda para a direita, ao toque de uma ou duas mãos ao mesmo tempo.

O código foi criado pelo francês Louis Braille (1809 – 1852), que perdeu a visão aos 3 anos e criou o sistema aos 16. Ele teve o olho perfurado por uma ferramenta na oficina do pai, que trabalhava com couro. Após o incidente, o menino teve uma infecção grave, resultando em cegueira nos dois olhos.

O Brasil conhece o sistema desde 1854, data da inauguração do Instituto Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, chamado, à época, Imperial Instituto dos Meninos Cegos. Fundado por D. Pedro II, o instituto já tinha como missão a educação e profissionalização das pessoas com deficiência visual. “O Brasil foi o primeiro país da América Latina a adotar o sistema, trazido por José Álvares de Azevedo, jovem cego que teve contato com o Braille em Paris”, conta a pedagoga Maria Cristina Nassif, especialista no ensino para deficiente visual da Fundação Dorina Nowill.

O código Braille não foi a primeira iniciativa que permitia a leitura por cegos. Havia métodos com inscrições em alto-relevo, normalmente feito por letras costuradas em papel, que eram muito grandes e pouco práticos. Quatro anos antes de criar seu método, Louis Braille teve contato com um capitão da artilharia francesa que havia desenvolvido um sistema de escrita noturna, para facilitar a comunicação secreta entre soldados, já utilizando pontos em relevo. Braille simplificou esse trabalho e o aprimorou, permitindo que o sistema fosse também utilizado para números e símbolos musicais.

O Braille hoje já está difundido pelo mundo todo e, segundo pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2008, do Instituto Pró-Livro, 400 mil pessoas leem Braille no Brasil. Não é possível, segundo o Instituto Dorina Nowill, calcular em porcentagem o que esses leitores representam em relação à quantidade total de deficientes visuais no país. Isso porque o censo do ano 2000, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), aponta que há 169 mil pessoas cegas e 2,5 milhões de pessoas com baixa visão. No entanto, este último grupo é muito heterogêneo – há aqueles que enxergam apenas 1% e, portanto, poderiam ler apenas em Braille, como pessoas que enxergam 30% e podem utilizar livros com letras maiores.

A falta de informação é ainda o principal problema que Maria Cristina percebe em relação ao Braille. “Muitos professores acham que é simples ensinar o Braille a um aluno cego. No entanto, a alfabetização com esse sistema tem suas especificidades, e o professor, para realizar essa tarefa com êxito, tem de buscar ajuda”, explica a especialista.

Hoje institutos como o Benjamin Constant, o Dorina Nowill e muitos outros pelo país oferecem programas de capacitação em Braille e dispõem de vasto material sobre o assunto. A fonte dessa informação é a Revista Nova Escola.