Deficientes visuais exploram Fortaleza através dos sentidos e alertam para a necessidade de maior acessibilidade

Ivanise Sampaio, de 69 anos, já nasceu cega. Jhonathan Silva, de 6 anos, perdeu a visão nos primeiros meses de vida. Para Priscila Aquino, de 29 anos, por outro lado, não ter um dos principais sentidos é realidade há apenas dois meses. Neste 13 de dezembro, Dia Nacional do Cego, as três gerações se encontram para mostrar como é explorar Fortaleza pelos cheiros, sons, gostos e texturas.

No Ceará, pelo menos 242 mil pessoas têm deficiência visual parcial ou total, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Elas são impactadas, diariamente, até por mudanças estruturais consideradas “simples” por quem enxerga, invisíveis à sociedade e ao poder público.

A pedagoga aposentada Ivanise Sampaio aprendeu a andar em Fortaleza e sofre com qualquer menor alteração das vias — Foto: Fabiane de Paula/SVM

“A gente se localiza muito pelo olfato. Quando tô no Centro, sinto quando passo em frente a uma loja de cosméticos, uma farmácia, um restaurante. Hoje tá mais difícil, porque as pessoas fecham as portas por causa do calor, dos assaltos”, aponta a pedagoga aposentada Ivanise Sampaio.

Se para muitos a mudança de sentido de uma rua representa um transtorno, para outros é determinante ao direito de ir e vir. “A gente anda contando os quarteirões. Mas agora as ruas estão mudando de sentido, e isso dificulta. Eu, hoje, fico perdida”, lamenta Ivanise. Apesar disso, a aposentada aponta que a cidade pode ser vivenciada também por meio das pessoas.

“Ainda encontro gente muito humana, mas tem outras… Meu marido também é cego e trabalha na Praia do Futuro. Tem motorista de ônibus que chega na parada e já chama ele, desce com ele pra ajudar atravessar [a avenida]. Já outros são horríveis, o transporte em geral é muito difícil”, relata a cearense da cidade de Canindé, Norte do Ceará, que aprendeu na Sociedade de Assistência aos Cegos, em Fortaleza, as estratégias para percorrer a cidade grande em segurança.