Braille: um sistema em constante evolução

Desde a pré-História, o homem já fazia o registro de suas manifestações espirituais e artísticas por meio de desenhos nas paredes das cavernas. Há cerca de 5 mil anos, a linguagem oral passou a ser representada por caracteres gráficos adaptados por diferentes civilizações.

A partir de então, a Filosofia, as Letras, as Ciências e as Artes passaram a ser reveladas por meio de textos escritos, permitindo à espécie humana preservar o seu passado e contribuir com o seu futuro. Com a invenção da imprensa, por Gutenberg, em 1455, a difusão da informação e da cultura passou a ser mais rápida e mais fácil.

Para as pessoas cegas, porém, a História só teve verdadeiramente início em 1825, quando o jovem Louis Braille desenvolveu um sistema de escrita e leitura em relevo baseado em um código criado pelo capitão Charles Barbier de la Serre para permitir a comunicação noturna entre os soldados do exército francês.

O Sistema Braille, baseado na combinação de seis pontos em relevo, permitia a representação do alfabeto e dos números, da simbologia matemática, fonética e musicográfica e adaptava-se plenamente às peculiaridades da leitura tátil, pois cada caractere podia ser percebido pela parte mais sensível do dedo indicador com apenas um toque.

Quase 200 anos são passados e este genial sistema natural de escrita e leitura continua atendendo às necessidades das pessoas cegas, adaptando-se à constante evolução das representações gráficas.

Durante estes quase dois séculos, o braille vem sendo utilizado como o meio natural de escrita e leitura das pessoas cegas, reconhecido como o instrumento mais preciso e eficaz para que os que já nasceram cegos ou perderam a visão nos primeiros anos de vida tenham acesso ao conhecimento e formem conceitos sobre seres, objetos, formas e realidades que a falta da visão lhes torna inacessíveis.

O Sistema Braille espalhou-se pela Europa e chegou à América ainda no século XIX, mas só chegou a alguns países da África e da Ásia na segunda metade do século XX.

A mágica combinação de seus seis pontos permite a representação de 63 caracteres que, graças ao empenho de muitos especialistas, possibilitou que o sistema pudesse adaptar-se a todos os alfabetos, inclusive o chinês, o árabe e o guarani.

Em 1949, a Índia solicitou à UNESCO que desenvolvesse esforços no sentido de tentar a unificação do Sistema Braille por grupos lingüísticos. A UNESCO aceitou o desafio e o trabalho teve início em julho de 1949, estendendo-se até dezembro de 1951. Todo o trabalho realizado durante esse período encontra-se registrado no livro “A Escrita Braille no Mundo”, publicado em 1953 e reeditado em 2013.

A partir da década de 1960, começaram a ser criadas comissões de Braille em diferentes países. Essas comissões, formadas por pessoas que conhecem profundamente o Sistema Braille e nele reconhecem um instrumento indispensável para a independência, a autonomia e a educação das pessoas cegas, vêm trabalhando incansavelmente para manter as características desse sistema e adaptá-lo à rápida evolução científica e tecnológica de nosso tempo.

Em 2009, ano em que foi amplamente comemorado o bicentenário de nascimento de Louis Braille, os mais de 500 participantes de uma conferência mundial realizada em Paris recomendaram a reativação do Conselho Mundial do Braille.

Dentre as ações desenvolvidas por esse órgão, que foi recriado pela União Mundial de Cegos, cabe ressaltar a elaboração de um alfabeto fonético internacional, que está em vigor desde 2013.

Em novembro de 2009, a Organização de Cegos Espanhóis (ONCE), a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) e a União Latino-Americana de Cegos (ULAC) criaram o Conselho Ibero-Americano do Braille, que, entre outras atividades, vem se dedicando à revisão e atualização do Código Matemático Unificado para as línguas portuguesa e espanhola.

No Brasil, foi criada em 1999, a Comissão Brasileira do Braille, vinculada ao Ministério da Educação. Esse órgão foi responsável pela elaboração e difusão de importantes documentos, dentre os quais cabe destacar a Grafia Braille para a Língua Portuguesa, as Normas Técnicas para a Produção de Textos em Braille e a Grafia Química Braille para Uso no Brasil.

Sem dúvida, as novas tecnologias ampliaram muitíssimo os horizontes das pessoas cegas ou com baixa visão, aumentando e facilitando a impressão de textos em braille, permitindo a produção do chamado “braille sem papel” (aquele que pode ser lido em displays), possibilitando o acesso à internet e aperfeiçoando a cada dia o uso dos leitores de tela.

Todavia, até o momento, nenhuma dessas tecnologias substitui o uso eficaz e inteligente do Sistema Braille, em especial para as crianças e jovens cegos.

Fica aqui, para reflexão, o último parágrafo de uma emocionante “carta” dirigida a Louis Braille pelo grande “braillólogo” cego Pedro Zurita, em 1997: 

“Prometo-te solenemente ser-te fiel, ainda que saiba que ao fim e ao cabo, seja por que caminho for, duma ou de outra forma, se alguém algum dia encontrar algo que supere o Sistema que tu propuseste ao mundo em 1825, tu, eu e todos nós nos alegraremos sobremaneira”.

*Regina de Oliveira é coordenadora de Revisão da Fundação Dorina e membro do Conselho Mundial e do Conselho Ibero-americano do Braille

Fonte: Fundação Dorina Nowill