Estudante cego que luta contra câncer se forma em direito, em Goiânia: ‘Sonho que se torna realidade’

Prestes a se formar em direito, o deficiente visual João Cláudio Lopes da Silva, de 27 anos, comemora a conquista da tão sonhada graduação, em Goiânia. Por ser totalmente cego, ele enfrenta desafios diários para se locomover, acompanhar as aulas, estudar e fazer as provas da faculdade. Além disso, o estudante luta contra um tumor cerebral há 12 anos.

Foi o câncer, inclusive, que provocou a cegueira nos dois olhos de João Cláudio, em 2008. Ao longo do tratamento, o estudante já passou por oito cirurgias e mais de 30 sessões de radioterapia. Com tantos obstáculos, João Cláudio considera que a formatura no curso superior é uma “superação”.

“Devido à deficiência, gasto mais tempo para estudar e preciso fazer um esforço maior, e o curso é pesado. Teve muito esforço, muitas pedras no caminho, muita luta. É um sonho que se torna realidade”, diz.

No fim do ano passado, João Cláudio recebeu a notícia de que o tumor cerebral, que havia sido curado em 2014, retornou. Agora, ele se prepara para passar pela nona cirurgia.

“Preciso fazer uma cirurgia intracraniana, que é bem invasiva, mas estou aguardando passar a minha colação de grau, em fevereiro, e a prova da OAB, no dia 5 de abril”, explica.

João Cláudio grava as aulas no celular para estudar por meio dos áudios, em Goiânia, Goiás — Foto: Angelita Magna/Arquivo pessoal

João Cláudio grava as aulas no celular para estudar por meio dos áudios, em Goiânia, Goiás — Foto: Angelita Magna/Arquivo pessoal

Rede de apoio

Animado pela formatura, marcada para esta segunda-feira (10), João Cláudio sonha em conseguir um emprego na área. Devido à sua dedicação ao longo da faculdade, o aluno chegou a ganhar uma bolsa de pós-graduação de um de seus professores, o coordenador do programa de acessibilidade do curso de direito da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Frederico Alves.

“Não chegaria até aqui sem o apoio desse professor. Algumas vezes pensei em desistir, mas ele sempre me apoiou e me incentivou”, diz.

Por sua vez, Frederico Alves conta que se sente grato por poder auxiliar na conquista de João Cláudio. “Me sinto muito satisfeito de poder ajudá-lo, é muito gratificante”, afirma.

João Cláudio e o professor Frederico Alves na aprovação do TCC do estudante, em Goiânia, Goiás — Foto: Angelita Magna/Arquivo pessoal

João Cláudio e o professor Frederico Alves na aprovação do TCC do estudante, em Goiânia, Goiás — Foto: Angelita Magna/Arquivo pessoal

Segundo o estudante, outra pessoa fundamental em sua trajetória é a esposa Angelita Magna Braga e Silva, de 41 anos. O casal se conheceu na faculdade há quatro anos.

“Ela trabalha na faculdade e lia as provas para mim no início. Fomos nos conhecendo e começamos a namorar. Há três anos nos casamos. Depois que nos aproximamos, ela deixou de ler as provas para mim. Até brinco que perdi a leitora, mas ganhei uma esposa”, comenta.

Uma das maiores incentivadores de João Cláudio, Angelita conta que o marido supera todas as limitações.

“Fico encantada pela independência dele. O João tem as limitações, mas ele supera tudo. Nós, por exemplo, temos como ler, ele não. Ele estuda tudo por gravações, se dedica muito, nunca desistiu, mesmo com todas as dificuldades”, diz a esposa.

Angelita e o marido João Cláudio, que se forma em direito, em Goiânia, Goiás — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Angelita e o marido João Cláudio, que se forma em direito, em Goiânia, Goiás — Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Cão-guia e óculos inteligente

Segundo Angelita, o sonho de João Cláudio é conseguir um cão-guia para ajudá-lo a se locomover com mais facilidade. “Ele quer muito conseguir um cão-guia, mas a fila é muito grande. Disseram que tem duas mil pessoas na frente dele, sendo que só disponibilizam cinco cães-guia por ano”, afirma.

Além disso, o estudante também tenta conseguir na Justiça o direito a receber um óculos inteligente.

“Esse óculos escaneia as páginas dos livros e lê para ele, fala as cores de roupas que as pessoas estão vestindo, lê placas, ajuda demais. Ingressamos com a ação há um ano, mas foi negada. Agora, entramos com o recurso”, relata Angelita.

Fonte: G1 Goiás