Histórias de quem utiliza a Louis Braille: Aluno Ben Hur Flores

Muitas pessoas que tem baixa visão e cegueira total utilizam e são atendidas pelos serviços que a Escola, Centro de AEE e Centro de Reabilitação Louis Braille oferecem só que poucos sabem de alguns personagens que fazem a instituição acontecer. Um deles é o aluno, que também é artista e coordenador da ONG Anjos e Querubins , Ben Hur Flores.

Ele fala um pouco do quanto tem aprendido nesses anos sendo atendido pela Louis Braille e o recomeço na vida dele. ” Nos últimos anos eu tenho falado muito que existe um Ben Hur antes e depois do Braille. Quando eu descobri a deficiência visual em 2012, achei que meu mundo tinha caído. Fiquei quatro meses que fechei as portas da ONG, pensei não tem como ajudar se eu preciso que me ajudem. A humildade passou longe naquele primeiro momento. Até então dava o discurso da humildade, mas não praticava. Aí com a deficiência visual, tive que ser um cara mais humilde mesmo.

A deficiência vai te trazer uma limitação , mas não vai trazer incapacidade. Tu tens que buscar se capacitar para poder voltar a ter uma vida normal de novo. Hoje tenho uma vida normal, mas porque que quando eu cheguei aqui num primeiro momento eu soube qual era o grau de deficiência que eu tinha. Sabia que tinha uma deficiência, O médico doutor Alexandre me atendeu no Centro de Especialidades da Beneficência Portuguesa. pedi socorro pra ele e ter a minha autonomia. Tinha medo até de atravessar a rua, quase fui atropelado três vezes. Queria voltar a andar sozinho, fazer as minhas coisas. Tocar pra frente o trabalho da ONG. Quando ele me trouxe pra cá sabia que tinha uma doença chamada distrofia macular retiniana. Mas não sabia o grau. Encontrei a Ju e outra menina que não lembro o nome,mas uma rica menina. A própria Thaís Venzke onde ela trabalhava num setor que era de avaliação. Depois identificaram meu grau de deficiência , a partir daquela identificação aí fui para outra etapa, voltei a ser atendido pelo doutor Alexandre , após isso fui para o Francis que vê os recursos para mexer no celular , onde consigo mexer nele, tenho a lupa, um binóculo. E quando o letreiro dos ônibus urbanos daqui não corria funcionava que era uma maravilha. Conseguia uma meia quadra identificar o nome do ônibus, a rota. Sabia quando era do Getúlio Vargas, Pestano, , Terezinha. No momento em que entrou o atual Consórcio do Transporte digo que não é consórcio de transporte coletivo, mas consórcio de gado, o atendimento piorou muito. Aí por isso o letreiro corre, aí não uso mais o equipamento, mas para outras coisas”.relata.

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Questionamos o Ben Hur sobre como ele observa a partir da transformação que ele obteve ao frequentar a Louis Braille , os amigos e amigas que são também deficientes visuais, mas que tem grau mais alto e o que ele faz para auxilía-los.

” Vou te dizer um negócio. Quando cheguei aqui na Louis Braille, encontrei um cara o nome dele também é Francis, que ele dava aula de Informática, Francis Guimarães. Como sou do teatro, minha formação é nessa área. A técnica do teatro me ajudou nessa minha adaptação a nova realidade que tenho. Então, eu sempre fui muito observador. Imagina com deficiência visual tu conseguir ser observador. Hoje eu uso o que me sobrou de visão que é só periférica para fazer o exercício da observação. Percebi quando vim pra escola que o Francis era cego total, que ainda é claro. Viajava para São Paulo, Porto Alegre, tudo sozinho. Passava num dos corredores daqui , e aí eu mexia com ele. Cara, estás mentindo, pô. Tu não é cego. Tanto que às vezes eu ia com a mãozinha na parede ainda para identificar o local que eu caminhava. Não conhecia bem o ambiente ainda. O Francis subia aquele escada feito um foguete, e eu pensava não é verdade isso. Na medida em que eu percebi que a escola teve um papel preponderante na vida dele hoje levo para outras pessoas.

Toda oportunidade que tenho de falar sobre a escola, sobre o trabalho dela. São quatro instituições que na minha opinião não podem faltar recursos. São elas a própria Escola Louis Braille, Alfredo Dub, Cerenepe e APAE. Inclusive dentro da ONG estamos fazendo a campanha das tampinhas de garrafa de dois litros, de seiscentos ml também. Cheguei a um mercadinho perto lá de casa e um amigo me disse assim, Bah Ben Hur, eu junto as tampinhas para a APAE porque meu neto é atendido lá e aí eu disse , segue juntando pra APAE. Eu me viro, se não tiver grana meu instrumento é um balde, é o chocalho feito com garrafa pet. Citei essas quatro instituições e o porque da Escola Louis Braile. Eu sou a prova viva que a escola muda a vida das pessoas. Chegamos aqui deprimidos, com desgosto, nos sentimos como se o mundo tivesse acabado, aí percebemos que dentro da escola existe vida depois da deficiência. Só terá que se readaptar a nova realidade”, finaliza.

Ben Hur ainda ressalta o retorno dele ao mercado de trabalho, a faculdade, ele fez ENEM e passou no curso de bacharelado em História na UFPEL. Tudo se deu graças ao trabalho da Escola Louis Braille tem feito para ele.

” Tenho algumas atividades dentro da escola que não faço como porque não me servir na prática no dia dia, porque consigo me adaptar com os recursos que o Centro de Reabilitação me fornece. Trabalhar com informática não preciso porque com as ferramentas que a escola me traz me possibilitam trabalhar na internet, e fazer as coisas da ONG. Já voltei pra faculdade, e quero voltar ao mercado de trabalho. Tenho uma limitação , mas não sou incapaz. Vou achar um caminho, fazer concurso público, porque quero retornar ao mercado de trabalho , não podemos ficar condicionados apenas porque a deficiência me trouxe limitação. Isso não. Se quero ser exemplo com o trabalho que faço no bairro, preciso ser exemplo e não ficar na síndrome do coitadinho. O poder sempre esteve na nossa mão”.

Ben Hur encerra dizendo que quem construiu as pirâmides do Egito não foi o faraó e sim o povo daquele local na época. Se naquele período a população não sabia o poder que tinha hoje em pleno século 21 ainda não descobriu o poder que tem.