Cega desde criança, jovem luta por inserção de mulheres deficientes na educação e no trabalho

Aos 27 anos, a assistente social Mayra Ribeiro de Oliveira fala a uma plateia em Ribeirão Preto (SP) sobre a importância da inclusão. Desde muito cedo, Mayra soube que seria necessário lutar por seu espaço na sociedade. Ela perdeu a visão aos 7 anos, mas a dificuldade em enxergar não fez dela uma pessoa frágil.

Com apoio da família, a jovem conseguiu chegar à universidade. Hoje, ela trabalha para mudar a realidade da acessibilidade no país e quebrar as barreiras impostas pelo preconceito.

Ao microfone, ela narra sua trajetória, encoraja outras mulheres deficientes a terem voz e discute políticas para ampliar a participação delas nas escolas e no mercado de trabalho.

“Se as pessoas não estão abertas para ouvir, a convivência se torna cada vez mais complexa. Às vezes, essas pessoas [com deficiência] são barradas nos direitos básicos. Para mim, uma vida plena é uma vida onde todas as pessoas estão inseridas em diversos espaços”, diz.

Mayra Ribeiro de Oliveira trabalha pela inclusão de mulheres deficientes na educação e no mercado de trabalho Ribeirão Preto, SP — Foto: Juliano Gonçalves/G1

Mayra Ribeiro de Oliveira trabalha pela inclusão de mulheres deficientes na educação e no mercado de trabalho Ribeirão Preto, SP — Foto: Juliano Gonçalves/G1

Aceitação

Antes de se tornar palestrante, Mayra percorreu um caminho de desafios e preconceitos. Ela nasceu com atrofia no nervo óptico, mas foi perdendo a visão gradativamente. Sem condições financeiras, os pais buscaram ajuda médica na Prefeitura de Guariba (SP), cidade natal dela, e a levaram a centros especializados. Mas o quadro era irreversível.

Mayra lembra que o processo foi doloroso emocionalmente, já que tinha só 7 anos quando perdeu a capacidade de enxergar.

“Atualmente, eu sou muito forte para dizer que eu sei conviver com a minha deficiência, que eu estou muito bem com a minha deficiência. Mas, para uma criança de 7 anos, não é tão fácil. Eu chorava muito, eu não queria andar com a bengala, eu não queria escrever o Braile. eu sentia ódio de todos os objetos que eram utilizados como sinônimo de perda da visão”, afirma.

Mayra lembra que pedia para estudar, mas que era comum chegar às escolas e receber uma negativa. A mãe a matriculou em uma instituição pública regular, mas ela não estava preparada para recebê-la.

“Uma vez, falaram para minha mãe assim: ‘nós vamos passar ela de ano mesmo sem aprender nada, porque para ela não vai fazer muita diferença’. Aí minha mãe falou: ‘minha filha tem uma deficiência visual. Vocês precisam trabalhar com ela’”, lembra.

Mayra Ribeiro de Oliveira entre os pais e a irmã caçula Ribeirão Preto — Foto: Arquivo pessoal

Mayra Ribeiro de Oliveira entre os pais e a irmã caçula Ribeirão Preto — Foto: Arquivo pessoal

Motivação para ir em frente

Foi a força da mãe, Marta Aparecida Ribeiro de Oliveira, que motivou Mayra desde pequena. A jovem lembra que Marta conheceu uma instituição gratuita em Jaboticabal (SP) que estava empenhada em auxiliar crianças com deficiência visual. Lá, ela conseguiu uma vaga para a filha, que frequentava a escola regular pela manhã e a escola especial, à tarde.

“Lá na Olhos da Alma eles fizeram todo um trabalho de socialização. Eles fazem atividade de vida diária, orientação e mobilidade com as bengalas, leitura em Braile, canto e coral, teatro natação, atletismo e futebol”, explica.

Quando finalmente chegou ao ensino médio, Mayra já não sentia mais a angústia da infância. A bengala e o Braile Embora as dificuldades jamais tivessem deixado de acompanhá-la, ela acreditava em seu potencial. Foi aí que ela decidiu fazer faculdade de serviço social e foi aprovada no vestibular da Unesp, em Franca (SP).

Fonte: G1 Ribeirão Preto e região