Aluno com deficiência visual conclui MBA na área de Computação na UFSCar

Sentindo-se intrigado, curioso e desafiado. Foi assim que o professor Fábio Luciano Verdi, do Departamento de Computação (DComp-So) do Campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), recebeu a notícia de que Francis de Oliveira Lisboa queria ingressar no Master in Business Administration (MBA) em Gestão de TI e Computação em Nuvem da UFSCar. Lisboa é engenheiro de software, trabalha há 17 anos no Itaú Unibanco e é 100% cego. O desafio exigiu formação de docentes e adaptações na estrutura física da Instituição que, junto à determinação do aluno, foram determinantes nesse caso de aprendizagem inclusiva no curso de especialização.

O ingresso de Lisboa no curso aconteceu em um momento de transição em sua vida: “Desde que perdi minha visão em 2006, tive depressão e dificuldade em encarar novamente uma sala de aula. Mas depois de trabalhar por muito tempo essa minha fragilidade, entrei em uma fase de mudança na minha vida”, relata Lisboa. Desde 2014, ele vem tentando recuperar o tempo perdido, buscando novos conhecimentos e quebrando paradigmas internos. “Fui atrás da minha primeira graduação somente depois desse período e, desde então, não parei mais de estudar”, conta.

Ele decidiu cursar o MBA porque a proposta se encaixava perfeitamente às suas pretensões de carreira. As aulas aconteceram de março de 2018 a fevereiro de 2020, quinzenalmente, nos laboratórios do DComp-So. Esta foi a primeira vez que o curso recebeu um estudante com deficiência. “Foi a primeira vez que eu precisei lidar na prática com um aluno com algum tipo de deficiência. Ouvia colegas falarem sobre experiências, mas eu mesmo nunca havia presenciado um estudante 100% cego fazendo um curso de especialização”, conta o professor Fábio Verdi.

“Tudo começou com uma ligação do Francis”, relembra o docente. “Ele se apresentou e perguntou se havia linhas de ônibus da rodoviária de Sorocaba para o campus da UFSCar. Também queria saber se o campus possuía infraestrutura para pessoas com deficiências visuais poderem se locomover”. Diante das respostas afirmativas, Lisboa, que mora na cidade de São Paulo, decidiu enfrentar o desafio. Mas ao saber que ele iria sozinho até Sorocaba, Verdi ficou apreensivo. “Então, fui entendendo melhor a situação e percebendo que ele tinha total condições e uma força de vontade tremenda para fazer o curso. E logo já nos primeiros dias de aula conheceu outros alunos da capital, que acabaram oferecendo carona”.

INFRAESTRUTURA

Buscando alternativas para receber Francis Lisboa da melhor forma, o coordenador do MBA encontrou a Equipe de Acessibilidade da Secretaria Geral de Educação a Distância (SEaD) da UFSCar. “Na verdade, descobri que a UFSCar tem um setor muito preparado para isso”. Ele também contou com a ajuda da professora Teresa Cristina Leança Soares Alves, do Departamento de Ciências Humanas e Educação (DCHE-So).

De seu lado, o estudante se preparava para cursar a especialização. “Os principais desafios estavam diretamente ligados ao aprendizado das matérias, ao meu receio quanto à aceitação e à didática dos professores diante de um aluno cego, e à logística de deslocamento até Sorocaba para as aulas presenciais”, elenca. “Observei que existe uma preocupação com o mínimo necessário para a locomoção de pessoas com deficiência no campus da UFSCar, o que permitiu me locomover dentro dos prédios com independência”, afirma o estudante.

Ele também ficou surpreso com a disponibilização dos materiais em braille, graças a uma impressora específica utilizada para imprimir previamente o material ao estudante. “Isso certamente é um diferencial dentro de instituições de ensino”, destaca.

“Muitas pessoas com deficiências visuais desistem de fazer cursos de graduação e de pós pois imaginam que as universidades públicas não possuem estrutura para recebê-los”, relata o coordenador do curso, “mas aqui, na UFSCar, eu mesmo me surpreendi com o apoio recebido. Eu solicitava aos docentes o material didático dez dias antes da aula e então enviava para o setor responsável pela adaptação do conteúdo”, destacando o papel da Equipe de Acessibilidade da SEaD. “Eles foram muito prestativos: recebiam o material digital – essencialmente arquivos de apresentação de slides – e adaptavam para que pudéssemos imprimir aqui no Campus de Sorocaba”, descreve Verdi.

Além da estrutura física e didática favoráveis, Lisboa utilizava algumas estratégias para potencializar seu aprendizado: “Procurava ler bastante sobre as matérias e fazer pesquisas independentes; isso me ajudava a desenvolver uma base para melhor fixação do conteúdo”, recorda o aluno.

FORMAÇÃO DOS PROFESSORES

Os docentes do MBA também participaram de um curso ministrado pela professora Teresa Leança, no qual ela abordou técnicas simples para as aulas, como a importância dos detalhes e a necessidade de explicações mais cuidadosas. “Imagens não são interpretadas pelos softwares leitores de tela, usados pelas pessoas com deficiências visuais e, portanto, eles não conseguem saber do que se trata. Por isso o uso de bastante texto no material também é importante”, diz Verdi.

Além disso, “como o curso é um MBA em Computação em Nuvem, temos muitas aulas nos laboratórios e o uso de softwares pelo Francis era um desafio. Os colegas sempre estavam dispostos a ajudar, mas entendo que estamos longe de termos aplicações ideais voltadas para pessoas com deficiências visuais”, analisa o professor da UFSCar.

Para o coordenador do MBA, o mais surpreendente no processo foi a força de vontade do estudante. “Também me surpreendeu como os outros sentidos dele são aguçados. Seu ouvido é muito bom. Ele reconhece a voz de cada pessoa e a localização. Durante o intervalo do café ele falava: ‘lá vem o Fábio Green [verde, em Inglês]’, fazendo uma brincadeira com meu sobrenome [Verdi]. Ele tem um senso de humor incrível e é muito inteligente”, ressalta o professor.

“Além de trabalhar com TI e conviver diariamente com tecnologia, sou bem antenado para usá-la a fim de suprimir minhas necessidades. Desde aplicativos que permitam que eu faça a leitura de cédulas de dinheiro, até redes sociais que buscam voluntários para me ajudar a identificar se minha roupa está combinando. Acredito que a tecnologia ainda irá suprir, se não na sua integralidade, boa parte das minhas faltas por eu não ter a visão. E certamente ela pode oferecer uma melhor qualidade de vida para resolução de problemas que hoje ainda tenho que enfrentar”, conclui Lisboa.

Fonte: São Carlos Agora