Xeque-mate no preconceito

A prática de esportes é uma grande forma de integração entre as pessoas. Independentemente das condições físicas de cada um, sempre há espaço para aqueles que têm vontade de jogar, se divertir e, até mesmo, competir. Foi com esse conceito e pensando no desenvolvimento social e intelectual dos participantes que a Federação Brasileira de Xadrez para Deficientes Visuais (FBXDV) promove mais uma edição do seu campeonato anual.

A Copa Brasil de Xadrez para Deficientes Visuais é uma confraternização de enxadristas de todo o País que tem como objetivo promover a inclusão e dar visibilidade e oportunidade de integração para os participantes. A competição teve início no começo do mês de março com a etapa da Região Sul, na cidade de São Jerônimo. Esta é a primeira das cinco programadas ao longo do ano pela competição nacional, que incluem as etapas Nordeste, em maio; Sudeste, em agosto; e Centro Norte; em outubro. A final será em Minas Gerais, no mês de dezembro.

De acordo com o diretor institucional da FBXDV, Oneide Figueiredo, a realização da primeira etapa em São Jerônimo foi proposta de uma amiga moradora da cidade que, apesar de não jogar xadrez, demonstrou interesse pela competição. A possibilidade de ir para municípios menores, porém, acaba sendo uma oportunidade de desenvolver um dos grandes propósitos da copa, auxiliar na reabilitação de deficientes visuais. O contato entre diferentes pessoas que convivem com a mesma condição é uma forma de perceber novas vivências e entender que é possível vencer as dificuldades da vida.

“Uma jogadora de São Bento do Sul, em Santa Catarina, tinha a visão normal, era professora e fez Psicologia enquanto enxergava. Ela se tornou diabética e, em função disso, perdeu a visão”, conta Vera Luiza Bergamo, esposa de Oneide e uma das organizadoras do evento. “Uma das coisas que ela encontrou quando começou a procurar o que fazer para sair de casa e aceitar a nova condição foi o xadrez”.

Vera, assim, acredita que histórias de superação como essa servem de exemplo para que outros possam também se reabilitar como cegos para continuar a viver a sua vida. Segundo ela, há famílias que não sabem que é possível que o deficiente visual seja inserido na sociedade, podendo estudar e trabalhar, e, por isso, acabam se conformando com a situação – enquanto isso, a pessoa que vive com a cegueira tem a capacidade de se adaptar e ser feliz.

Os campeonatos, além disso, também possibilitam uma grande integração entre os deficientes visuais mais velhos e os novatos. Isso acaba sendo uma oportunidade para a troca de experiências entre os cegos. Aqueles que já passaram por grandes desafios, ao se encontrarem com os outros, podem passar este conhecimento para eles. 

No xadrez para deficientes visuais, são usados dois tabuleiros para que cada jogador reproduza as jogadas anunciadas pelo seu adversário. As casas pretas têm altura diferente das brancas, assim como as peças de uma das cores, que se distinguem no tato (normalmente são ásperas). Além disso, há pinos para que as peças fiquem encaixadas a pequenos buracos no tabuleiro para não cair, pois o jogador faz a leitura de jogo com as mãos. Na borda do tabuleiro estão escritos, em braile, o número e a letra a que corresponde cada casa. Assim, deficientes visuais podem jogar com pessoas que não possuem a deficiência sem prejuízo para quem não enxerga.

Criado por um grupo de cegos no Rio Grande do Sul, o Movimento de Xadrez para Deficientes Visuais começou no final dos anos 1980 e foi crescendo a nível nacional ao longo dos anos. Criando adeptos a cada edição, a competição conta com participantes homens e mulheres de diferentes idades, e a separação por faixa etária e gênero ocorre apenas na hora da classificação, de forma que todos possam jogar entre si.

Vera Luiza e Figueiredo destacam histórias de superação que estimulam as pessoas cegas a buscarem forma de se inserirem na sociedade

A Copa de Xadrez é aberta ao público e, para participar, os interessados devem estar ligados a alguma associação para deficientes visuais. O evento envolve fins de semana com duas diárias em hotéis e, para financiar a estadia, que inclui quatro refeições e toda a organização, é cobrado um valor para inscrição de cada jogador, e os organizadores buscam patrocínios de amigos ou de associações. Oneide, por exemplo, colabora vendendo erva-mate. “É minha iniciativa de vender para buscar fundo. Eu não paro por falta de dinheiro”.

Fonte: Jornal do Comércio do RS