Deficientes visuais relatam medo do coronavírus: ‘muito mais risco’

A aposentada Ângela Alves França, de 62 anos, já se enquadra no grupo mais vulnerável em ter complicações decorrentes da Covid-19 só pela idade. Porém, ela também é deficiente visual e a mão é sua ferramenta tátil, assim como o uso da bengala é essencial no seu cotidiano. Em entrevista ao G1 nesta terça-feira (31), ela relatou as dificuldades de prevenção ao novo coronavírus para as pessoas cegas e de baixa visão e o medo por se sentir ainda mais exposta aos riscos de contaminação.

Relatórios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde colocam os mais velhos entre os mais suscetíveis e entre aqueles afetados pelos maiores índices de letalidade quando atingidos pelo novo coronavírus. E, segundo a Organização Nacional de Cegos do Brasil (ONCB), particularidades cotidianas colocam as pessoas com deficiência visual em condições vulneráveis às situações de risco.

Ângela mora sozinha em Santos, litoral paulista. Ela conta que tem baixa visão e por isso só enxerga vulto e claridade. Sempre que precisa ir à padaria ou ao supermercado, pega a bengala e caminha até o estabelecimento, compra o que precisa e vai embora. Desde a pandemia do coronavírus, ela passou a ter mais dificuldade em manter sua independência.

“Corremos muito mais risco. Primeiro porque saio com a minha bengala, preciso dela para tudo, e acaba sendo um objeto suscetível a transmissão do vírus, porque encosta no chão e em outras superfícies. Segundo porque a mão é minha principal ferramenta de identificação das coisas e locais. Por isso estava sempre saindo de máscara e luva. Mas acabou e não acho mais nenhum dos dois para comprar”, conta.

Os dias da aposentada também se tornaram mais solitários, já que não pode mais frequentar o espaço em que convivia e fazia atividades com outros deficientes visuais, devido as medidas de prevenção ao novo coronavírus, que proíbe a aglomeração de pessoas. “Não conseguimos ter certeza se estamos a um metro de distância da outra pessoa se vamos ao mercado, por exemplo. Então não temos certeza da nossa segurança para prevenir a contaminação do coronavírus. É muito difícil”, relata Ângela.

Essas medidas gerais de prevenção amplamente divulgadas esquecem de nós, deficientes visuais, e não nos mostram como agir efetivamente. Eu chego em casa e já deixo a minha bengala para lavar, mas não consigo ter a certeza que a limpei totalmente. Assim como se saio na rua não consigo garantir que estou em uma distância segura das outras pessoas, que evite a contaminação do vírus. Estou até evitando de ir ao mercado ou padaria, mesmo quando preciso. É um medo constante”, destaca.

Riscos de contaminação

Segundo divulgado nas redes sociais pela Organização Nacional de Cegos do Brasil, necessidades cotidianas colocam as pessoas com deficiência visual em condições vulneráveis às situações de risco, como por exemplo:

  • Utilização freqüente das mãos, considerado principal veículo de contaminação, seja para exploração tátil inerente às pessoas com deficiência visual, seja para utilização e manipulação de tecnologias assistivas como bengalas, muletas, entre outras que passam a ser vias diretas de contaminação;
  • Contato direto com outras pessoas para auxílio nas atividades de vida diária, sobretudo apoio de terceiros ao longo do percurso aos ambientes externos, onde se inclui o deslocamento para as unidades de saúde e demais atividades no decorrer de sua jornada;
  • Maior necessidade de apoio em corrimões, mesas, superfícies, bancadas e outros locais que se apresentam como potenciais vias de contaminação;
  • Necessidade de assistência de terceiros para direcionamento por pessoas com deficiência visual;
  • Grande aproximação de material escrito ao rosto por parte de pessoas com baixa visão.

Fonte: G1 Santos e região